O LEGADO DA FLOR

JOSÉ BARBOSA

A flor que brotou da tua rude mão

(Efêmera flor)

Quase ninguém a viu.

Somente os que se dão ao trabalho de contemplar a vida.

Parecia só ornamento, mas deu de beber aos passarinhos.

Parecia transparente de tão branca, mas coloriu um pouco mais o jardim dos homens.

Parecia silenciosa, mas orquestrou uma sinfonia de trinados.

Parecia triste, mas no fim daquela tarde alegrou um coração.

 

JOSÉ BARBOSA DA SILVA é licenciado em Pedagogia, Letras, Teologia/Filosofia. Especialista em Docência do Ensino Superior e em Legislação Educacional. Mestre em Educação e em Letras, professor de disciplinas de formação pedagógica do IFPI – Campus Cocal. E-mail: josebarbosa@ifpi.edu.br

Ilustração | Hávyla Lavigne

CONHEÇA-ME

FLAVIANA DE CASTRO

Minha vida é um texto sem coesão,
Cheia de pronomes indefinidos,
Cada verbo é núcleo de uma frase vazia,
Os porquês surgem denotativamente
Sempre atraídos por um termo solto.
Talvez eu seja um sujeito sem predicado,
Sem exigir nenhum complemento,
Com uma intransitividade fora do comum.
Não sei.
E a conjugação desse verbo (saber)
É sempre em primeira do singular.
Os meus objetos de desejo
Não são nem diretos nem indiretos.
São apenas objetos
Porque meus adjuntos adnominais
Já não me caracterizam.
Estou me sentindo um agente da passiva
Ou talvez um verbo no particípio.
Não sei.
E a conjugação desse verbo (saber)
É sempre em primeira do singular
Porque minha vida é um texto sem coesão.

FLAVIANA DE CASTRO é professora de língua portuguesa do Instituto Federal do Piauí

Ilustração | Marina Brito

METASSONETO

JOSÉ BARBOSA

Pede-me a dama que eu faça um soneto
(Composição que tem catorze versos);
E ao terceiro já cheguei, confesso,
Dos quatro que compõem este quarteto.

Ao quinto verso logo me arremeto,
E sai-me o sexto um tanto controverso,
Mas não desisto, e o sétimo começo
A ver se dou desfecho ao octeto.

Pelos tercetos entro com coragem
Deste poema livre de bagagem,
Para dizer a quem o encomendou

Que o soneto não contém mensagem:
São tão somente de metalinguagem
Versos que eram para ser de amor.

 

 

JOSÉ BARBOSA DA SILVA é licenciado em Pedagogia, Letras, Teologia/Filosofia. Especialista em Docência do Ensino Superior e em Legislação Educacional. Mestre em Educação e em Letras, professor de disciplinas de formação pedagógica do IFPI – Campus Cocal. E-mail: josebarbosa@ifpi.edu.br

Ilustração | Marina Brito

MÚSICA É VIDA

WILKER MARQUES

Quando Nietzsche afirmou que “sem a música a vida seria um erro”, estava tomando o cuidado que é próprio aos grandes homens de pensamento: ele não estava dizendo que se não houvesse música a vida seria inconcebível, nem que seria impossível, nem que ela seria inviável; o que ele disse, com precisão, foi que ela seria, simplesmente, um erro. Essa é uma daquelas afirmações que mesmo antes de a gente captar seu significado, somos sequestrados violentamente por seu sentido profundo.

Nietzsche não tinha medo ou aversão ao que é feio ou aos sofrimentos da vida. O conceito de amor fati[1], tão evidente em sua retórica filosófico-poética, é justamente isso: tudo o que compõe a vida precisa ser aceito, respeitado, enfrentado e fruído. E nisso também ele foi um mestre, sua história de vida se confundia com seu pensamento[2]. Ele amou e sofreu com intensidade. Mas quando se referia a força e alegria de existir, em geral, estava falando de Música, de Arte.

Música é vida. Ela é mais que ondas sonoras organizadas, mais que palavras justapostas nas frases de uma melodia, mais que uma sequência criativa de acordes. Ela é um modo de comunicar sem dizer, de dizer sem palavras e de imprimir às palavras uma sonoridade e um alcance totalmente inusitados. A música é capaz de falar até quando para, quando todos os integrantes de uma orquestra sinfônica estão em uma pausa geral. Ou até quando o guitarrista de uma banda de rock decide – sabe-se lá por quê – tocar com os dentes. Ela está nos logaritmos da matemática, na vibração dos tubos sonoros e no movimento das esferas que giram no firmamento. Ela está na ponta da batuta do maestro e na leveza das asas das borboletas. Ela está na atitude de louvar a Deus, nas brincadeiras das crianças, no pedido de casamento e no instante de saudade.

Música não é só aquilo que o músico adota como profissão. Ela é a morada do músico, um lugar no mundo em que ele se sente em casa. É por essa razão que após tocar por três horas ou mais – enquanto as outras pessoas jantam e conversam distraídas – ele volta pra casa assobiando. No caminho, vem chegando de volta a esse mundo real, cheio de obrigações, e uma delas lhe é urgente: praticar mais o seu instrumento.

Ocorre, entretanto, que não precisa ser músico para perceber algo, façamos um experimento: pare um instante, feche seus olhos, ouça o Bolero de Ravel, ou ouça Imagine de John Lennon, ou então Wind of Change da banda alemã Scorpions, ou Trem das Cores de Caetano Veloso. Após isso, pense: essa música poderia não ter existido… para isso bastaria que o seu autor – homem real, de carne, osso, amor e dor, como Nietzsche – tivesse optado por não dedicar um tempo especial de sua vida a fazê-la, costurando as palavras, pincelando as cores dos acordes, montando o quebra cabeça dos tempos precisamente articulados, pesando a massa sonora, traçando o caminho dos solos, medindo a extensão das notas etc.

Está feito. Chegamos ao típico espanto que faz nascer toda a reflexão. Chegamos ao ponto onde esteve o grande pensador alemão. Somos impelidos a perguntar: como seria a vida sem isso?!

1| Expressão latina equivalente a “amor ao destino”. É um conceito filosófico muito recorrente ao pensamento dos filósofos estoicos e, também, à filosofia de Nietzsche. Trata-se de um convite a aceitarmos que tudo de bom e de ruim que a vida nos traz é importante para sermos quem somos.

2| Do ponto de vista formal, a obra intelectual de Nietzsche é, de certo modo, caótica, alternando textos mais dialógicos entre si com aforismos desconexos, como a vida costuma ser.

WILKER MARQUES é professor de Filosofia do IFPI – Cocal, advogado e músico. Ele é capaz de comprar um livro só pela beleza da capa, de parar de falar para ouvir uma música, e acredita que tudo o que pode ser dito pode ser dito com beleza.

Ilustração| Marina Brito

EDUCAÇÃO EM CORDEL

Escrita por muitas mãos

Meu amigo e minha amiga,
Prestem muita atenção!
Vou tratar de coisa séria:
Falar sobre educação!
É o que mais se precisa
Pro futuro da nação!

Ela está em todo canto,
Não se aprende só na escola:
Tudo começa é em casa
Com os pais, com a viola,
No convívio social,
E até jogando bola!

Pois todos temos um sonho
Pra fazer acontecer!
Tem que ter disposição,
Acreditar e vencer.
Só precisa ter é foco:
conhecimento é poder!

Aprender é dialogar,
Paulo Freire já dizia:
aquilo que você sabe
é mermo o que eu não sabia!
Junta com aquilo que eu sei,
haja prosa e harmonia!

Cada um tem seu valor,
Seja rico ou seja pobre.
Nós somos todos iguais,
O coração é que é nobre:
Não adianta mansão
Para quem não se descobre!

Para entender a potência
Dessa tal educação
Basta reparar na corja
Destruidora da nação.
O primeiro que atacam:
Nossa aula, nosso chão!

Mas é direito de todos
Acessar a educação,
E é só o dever do povo
Ter certa dedicação,
Meditar na maravilha
Do cordel e do baião.

Solução pra construir
Uma nova sociedade
Com força pra superar
Mazelas da atualidade
Pra que possamos viver
Uma nova realidade!

Pois esse mundo tão grande
Está a desmoronar:
É tanta desigualdade
Um quer no outro pisar
Sem saber que a união
É o amor a triunfar!

Não importa onde for
Em casa ou na escola
Na fala ou no papel
O jovem se desenrola!
É ela: e-du-ca-ção,
Que leva o ódio simbora!

Não percamos nosso tempo
Com gritos autoritários!
Façamos desse momento
Liberdade sem calvário,
Sem dor, sem ansiedade,
Escutando a voz de vários.

Mas um só de cada vez
É mió pra se entender,
Senão vira uma bagunça
Que só vendo para crer:
Ninguém faz uma pergunta
Mas tudim quer responder!

Como diz o capoeira,
“todo mundo quer ser mestre,
aluno ninguém quer ser”!
Tenho solução que preste:
todo mundo vira aluno
e assim também é mestre.

Educação modifica
Faz a vida prosperar!
É o ato de aprender
E os maus hábitos mudar.
Quem aprende, sempre ensina,
Para Deus se alegrar.

Pois ela abre caminhos
Do aprendiz ao docente.
Vai além do conhecer,
Ativa o inconsciente!
A busca do aprendizado
Nos faz é resiliente!

Eu não penso na escola
como uma obrigação!
Quero mais, mais do que isso,
quero experimentação!
Lugar de errar e viver,
de amar com o coração.

A bagunça sem sentido
Não faz ninguém prosperar.
Prestar atenção é bom
Pra também poder falar.
Eu adoro uma bagunça
Só se eu puder te escutar.

Até entendo a vontade
De levantar e sair,
De conversar com irmão,
Bater perna por aí…
Pois quem que pode aguentar
Cinco horas sem sorrir!

Este é o cerne da questão
(No escrever que ele aparece):
Pra quê mesmo essa aula
Cheia de tensão e estresse?
Assim ninguém nunca aprende
E o que sabia, esquece!

Pois existe uma postura
de certo professorado,
que o aluno sente logo
tipo inferiorizado,
como se ter disciplina
fosse pastar feito gado.

Tem que ficar bem quietinho,
sem se mexer nem coçar,
só ruminando as matéria
feito bicho no curral,
decorando direitinho
o y, o x e o a.

Mas e se esse professor
Não se esforça em aprender
Não quer saber nem meu nome
Nem se eu tive o que comer!
Sem saber da minha vida
Não tem jeito de aprender.

Se eu quero ser compreendido,
Eu preciso compreender,
Entender a realidade,
Por dura que possa ser.
Pense numa promissão
Grandiosa de viver.

A promissão de ser mestre
E ser aluno também,
Nos ensina a empatia,
Nos faz querer só o bem,
Em todo e qualquer lugar
Não importa para quem!

São infinitas as formas
De aprender a aprender!
Mas tem que ter emoção
Pra ler e pra escrever,
Transbordar de corpo e alma
Na alegria de viver!

Essa é a garantia
Para um futuro melhor!
Agradeço aos professores,
Não se aprende nada só:
Nota azul em matemática,
Essa eu aprendi de cor!

Então: foco no sucesso
E não deixe de estudar!
Sempre acredite em você,
Nunca pare de sonhar:
Educação é a chave
Pr’essa vida melhorar.

MÃOS QUE ESCREVERAM
Alysson de Aguiar Sousa
Daniel Glaydson Ribeiro
Débora Mayra R. Miranda
Erica Fernanda Oliveira Sousa
Francisca Estefani Silva Sousa
Francisco Kevin Portela
Gabriele Vitória R. Machado
Geiciane dos Santos Silva
Gustavo da Silva Sousa
Hudyson Rabelo de Siqueira
João Lielson Ferreira Sousa
José Reydson Barros da Silva
José Victor de Brito Cavalcante
Luís Felipe da Silva Gomes
Maria Eduarda Siqueira
Maria Micaely Oliveira da Silva
Myslen Kelly Carvalho Pereira
Rafael Pereira de Amorim

MÃOS QUE ILUSTRARAM
Sanzio Marden